Escritório Contábil Datacon LTDA - O Brasil esgotou o crescimento pela demanda
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30
out
2026

O Brasil esgotou o crescimento pela demanda

O País vive um paradoxo. A taxa de desemprego está em 5,3%, o menor nível da série histórica para esta época do ano, o número de ocupados é recorde e a renda real cresce perto de 4% ao ano (a.a.). Ainda assim, a economia perde fôlego. O consumo das famílias, que avançou 5,1% em 2024, desacelerou para 1,3% em 2025 e deve crescer perto de 1% neste ano. As projeções de mercado apontam para uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,8% em 2026 e de apenas 1,3% em 2027.

Quando emprego e renda atingem níveis recordes, mas o consumo não acompanha, o problema deixa de ser a falta de renda e passa a estar no próprio modelo de crescimento. Nos últimos anos, o Brasil expandiu a atividade econômica estimulando a demanda por meio do crédito, das transferências de renda, dos reajustes do salário mínimo e dos gastos públicos. Esse motor cumpriu o seu papel, mas dá sinais de esgotamento por três razões principais.

A primeira está no orçamento familiar, que destinam um recorde de 28,9% da renda ao pagamento de dívidas, ante cerca de 22% antes da pandemia. Oito em cada dez lares estão endividados. Com o crédito pessoal custando 60% a.a., um dos instrumentos que sustentaram o consumo passou a comprometer a capacidade de compra dessas pessoas.

A segunda razão é o custo do dinheiro. Após permanecer em 15% por quase um ano, a Selic está em 13,75%. Com a expectativa de inflação de 4,3% para 2027, o juro real se aproxima de 9%, um dos patamares mais elevados do mundo. Ao mesmo tempo, a inflação deste ano deve encerrar acima do teto da meta. Em um cenário de mercado de trabalho aquecido, novos estímulos à demanda tendem a pressionar os preços em vez de sustentar uma expansão duradoura da atividade, dificultando o processo de redução dos juros.

A terceira barreira é fiscal. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, quatro pontos porcentuais (p.p.) acima do nível registrado no fim do ano passado. Os juros nominais, por sua vez, responderam sozinhos por 6,5 pontos da alta acumulada neste ano. Com 91,7% das despesas primárias de 2027 já comprometidas com gastos obrigatórios, o País corre o risco de aprofundar um círculo vicioso — a expansão dos gastos contribui para manter os juros elevados, o custo da dívida aumenta e o endividamento crescente exige um prêmio de risco maior. A reação dos mercados ao resultado das urnas mostrou o preço que essa dinâmica pode impor à economia.

Por trás desses limites conjunturais existe um problema estrutural: o Brasil produz pouco por hora trabalhada e investe menos do que precisa para reverter esse quadro. A taxa de investimento foi de 16,1% do PIB no segundo trimestre, enquanto a poupança nacional ficou em apenas 14,4%. Em outras palavras, o País investe pouco porque também poupa pouco. Segundo o Observatório da Produtividade da FGV Ibre, a produtividade do trabalho cresceu apenas 0,8% a.a. entre 1996 e 2025 e avançou meros 0,3% anuais nos últimos seis anos. Durante décadas, boa parte da expansão econômica veio da incorporação de mais trabalhadores ao mercado. Com o desemprego em seu nível mais baixo e o bônus demográfico perdendo força, essa estratégia se aproxima do limite. De agora em diante, o crescimento sustentável da renda dependerá cada vez mais da capacidade de produzir mais com os recursos disponíveis.

Há, porém, uma notícia positiva. O Brasil já demonstrou que pode crescer com mais contribuição da produtividade. Nos anos 2000, a economia avançou 3,5% a.a., e quase metade dessa expansão decorreu de ganhos de produtividade — o dobro do ritmo esperado para o crescimento atual. Não se trata de inventar uma nova fórmula, mas de recuperar e aprofundar uma agenda capaz de elevar a eficiência da economia.

O governo reeleito terá, portanto, uma escolha decisiva no primeiro ano do mandato, quando o capital político tende a ser maior: insistir em um modelo baseado no estímulo à demanda, com o risco de perpetuar a inflação, os juros elevados e o avanço da dívida, ou redirecionar a política econômica para fortalecer a oferta. A primeira frente é a credibilidade fiscal, com uma trajetória consistente de estabilização da dívida e medidas para conter o avanço das despesas obrigatórias. A segunda é a implementação eficiente da Reforma Tributária, com a entrada em vigor da CBS em janeiro. A terceira consiste em uma agenda de produtividade que inclua Reforma Administrativa, simplificação regulatória, segurança jurídica e mais abertura comercial. Nesse contexto, o acordo entre Mercosul e União Europeia, em aplicação provisória desde maio, representa uma oportunidade concreta para reduzir custos de acesso a máquinas e insumos e ampliar a integração brasileira às cadeias internacionais de produção. Quanto mais consistentes forem os sinais de mudança, maior será o espaço para uma redução sustentável dos juros.

Nada disso implica abandonar o consumo, mas criar as condições para que ele cresça de forma sustentável. Uma economia mais produtiva consegue remunerar melhor seus trabalhadores, operar com juros estruturalmente menores e ampliar o consumo sem depender do endividamento crescente da população. O Brasil dispõe de um mercado consumidor de R$ 8,6 trilhões. O desafio, portanto, não é estimular indefinidamente a demanda, mas ampliar a capacidade produtiva para atendê-la.


Fonte: Contábeis

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